Quase toda reunião em que o dado “já existe” começa igual: o financeiro abre uma planilha, o operacional abre outra, o painel mostra um terceiro número. Ninguém está mentindo. Cada um puxou o mesmo fato de um lugar diferente, com um recorte diferente, numa hora diferente.
O problema não é o Power BI. Também não é a planilha. É a ausência de um contrato: o que conta como dado cru, o que já foi limpo, e o que pode ser citado numa decisão.
Três versões do mesmo fato
Na prática, o que vemos se repetir:
- Alguém exporta do sistema legado na sexta e “atualiza o Excel”.
- Outra pessoa filtra o mesmo extract, tira cancelado, ou não tira, e chega noutro total.
- O painel lê uma query que ninguém documentou — às vezes direto da base de produção.
Três versões. Uma reunião. A pergunta vira “esse número está certo?” em vez de “o que a gente faz com ele?”.
Isso aparece em barbearia e em escritório de advocacia. O domínio muda; a briga de versão é a mesma.
Medallion não é slide de Databricks
Medallion — bronze, silver, gold — só funciona quando cada camada tem um papel que dá para auditar:
- Bronze guarda o que a fonte mandou, sem “já arrumar”. Se o legado veio sujo, o bronze fica sujo. O valor está em poder voltar na origem.
- Silver é o contrato de qualidade: tipo, chave, duplicata, fuso, o que é nulo de verdade. Aqui o dado fica comparável entre sistemas.
- Gold é tabela de negócio. Ocupação, ticket, fila, receita — a métrica que o gestor pergunta toda semana, com a regra escrita.
Se o painel lê bronze “porque é mais rápido de ligar”, o número vai oscilar. Se a planilha é um gold informal na máquina de uma pessoa, o painel nunca vai bater — e não deveria fingir que bate.
Não precisamos de um lakehouse enorme para isso. Precisamos da disciplina. Num SaaS menor, o mesmo contrato cabe num PostgreSQL analítico alimentado por Airflow. Quando o volume e a sensibilidade crescem, a conversa vai para Databricks e governança de acesso. A camada é a mesma ideia.
O que muda quando o contrato existe
O ganho chato, e o que importa: o time para de remontar extract. O pipeline roda no ritmo da fonte. Falhou, reprocessa. O painel aponta para gold. A planilha, se ainda existir, é rascunho — não é fonte da reunião.
Isso é o que separa “temos dado” de “dá para decidir”. No ForBarber, é o que transforma agendamento em visão de faturamento sem misturar tenant.
Não vamos listar tempo de query nem economia de nuvem. Isso só vale no contexto do cliente, medido no ambiente dele.
Quando a planilha ainda é o lugar certo
Se o negócio cabe numa aba, uma pessoa dona da regra e ninguém toma decisão de risco com aquele número, planilha resolve. Forçar lakehouse nisso é teatro.
A conversa muda quando:
- duas áreas brigam pelo total;
- o extract manual quebra e só uma pessoa sabe remontar;
- o painel existe, mas ninguém cita ele na reunião;
- o dado é sensível o bastante para precisar de linhagem — quem viu, de onde veio, quando.
Aí não é “implementar BI”. É engenharia de dados com consumo que o time usa.
Se essa briga de número é a sua, escreve. Diagnóstico curto, sem proposta genérica no primeiro e-mail.